
Quando se fala em TDAH, a primeira coisa que costuma vir à cabeça é a dificuldade de concentração. Mas o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade é muito mais complexo do que simplesmente “não conseguir prestar atenção”.
Desatenção, hiperatividade e impulsividade são características centrais do transtorno, mas podem se manifestar de maneiras diferentes em cada pessoa. Além disso, alterações no sono, ansiedade, estresse e dificuldades na organização da rotina também podem estar presentes e impactar a qualidade de vida.
Por isso, o cuidado com o TDAH precisa considerar a pessoa como um todo, e não apenas o diagnóstico.
É nesse contexto que a Fitoterapia pode ser uma aliada: existem plantas medicinais e compostos naturais que vêm sendo estudados por seu potencial de contribuir para diferentes aspectos relacionados ao quadro.
Isso não significa que exista uma “planta para TDAH”. Significa que a ciência já investiga diferentes possibilidades e que a Fitoterapia pode fazer parte de uma estratégia terapêutica individualizada, quando indicada e acompanhada por um profissional de saúde.
O TDAH não afeta apenas a atenção
Imagine uma pessoa que apresenta dificuldade para manter a concentração, mas também enfrenta problemas para organizar tarefas e estabelecer uma rotina de sono. Agora imagine outra que, além do TDAH, convive com ansiedade e noites mal dormidas.
Embora ambas possam ter o mesmo diagnóstico, suas necessidades de cuidado podem ser bastante diferentes. E essa diferença é importante para compreender o papel da Fitoterapia.
Em vez de procurar simplesmente “uma planta para aumentar o foco”, a avaliação pode considerar quais manifestações estão mais presentes e quais aspectos estão interferindo na rotina daquela pessoa.
A partir disso, diferentes plantas medicinais podem ser estudadas por suas propriedades e pelo potencial de contribuir para determinados sintomas ou aspectos associados ao quadro.
É uma forma de olhar para o cuidado de maneira mais ampla e individualizada.
O que a ciência já está investigando?
A relação entre plantas medicinais e sintomas relacionados ao TDAH já é objeto de pesquisas clínicas.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2022 avaliou estudos com plantas medicinais em crianças e adolescentes com TDAH. Entre as espécies investigadas estavam Melissa officinalis, Bacopa monnieri, Matricaria chamomilla e Valeriana officinalis.
Os resultados encontrados foram considerados interessantes pelos pesquisadores, com indicações de possíveis benefícios e de segurança para diferentes sintomas. Ao mesmo tempo, os autores destacaram que a quantidade e a qualidade das evidências ainda não permitem estabelecer recomendações definitivas.
Ou seja: há resultados promissores, mas a pesquisa ainda está avançando.
Outra revisão sistemática, publicada em 2023, reuniu 15 estudos sobre medicamentos à base de plantas e fitoquímicos em crianças e adolescentes. Entre as plantas investigadas estavam Ginkgo biloba, Valeriana officinalis, Melissa officinalis, Passiflora incarnata e Crocus sativus.
Os resultados não foram iguais para todas as espécies. Algumas apresentaram achados promissores para determinados sintomas, enquanto outras não demonstraram benefícios consistentes.
E essa diversidade de resultados é justamente o que torna a pesquisa tão importante: ela ajuda a entender quais possibilidades realmente merecem ser investigadas e em quais contextos podem fazer sentido.
Algumas plantas apresentam resultados muito promissores
Entre as espécies que vêm sendo estudadas, algumas chamam atenção pelos resultados encontrados em pesquisas.
A Crocus sativus, conhecida como açafrão, por exemplo, vem sendo investigada por seu potencial relacionado a sintomas de TDAH. Estudos clínicos iniciais encontraram resultados interessantes, inclusive em comparação com tratamentos convencionais, embora sejam necessários estudos maiores para confirmar esses achados.
A Ginkgo biloba também já foi estudada no contexto do TDAH. Algumas pesquisas observaram possíveis efeitos sobre determinados sintomas, embora os resultados ainda sejam inconsistentes e não permitam estabelecer uma recomendação geral.
Já plantas como Melissa officinalis e Valeriana officinalis despertam interesse especialmente por suas propriedades relacionadas ao sistema nervoso e ao sono, aspectos que podem ser relevantes para algumas pessoas com TDAH.
Isso não significa que essas plantas sejam automaticamente indicadas para qualquer pessoa com o transtorno. Significa que existem possibilidades terapêuticas sendo estudadas e que algumas delas já apresentam resultados que justificam novas investigações.
E quando o sono também é um problema?
O sono merece uma atenção especial. Dificuldades para dormir podem estar presentes em pessoas com TDAH e, quando isso acontece, podem interferir ainda mais na atenção, disposição e funcionamento durante o dia.
Nesse contexto, algumas estratégias naturais também vêm sendo estudadas.
A melatonina, por exemplo, foi investigada em crianças e adolescentes com TDAH que apresentam dificuldades relacionadas ao sono. As evidências disponíveis indicam que ela pode ajudar algumas pessoas a adormecer mais rapidamente e aumentar a duração do sono.
Mas existe uma diferença importante: melhorar o sono não significa tratar o TDAH como um todo.
É justamente por isso que uma avaliação individualizada é tão importante. O objetivo não é simplesmente escolher um produto natural, mas entender o que aquela pessoa precisa e quais estratégias podem contribuir para seu cuidado.
Fitoterapia não é procurar “a planta do TDAH”
Talvez esse seja um dos pontos mais importantes. Quando alguém pesquisa “qual planta é boa para TDAH?”, parece que deveria existir uma resposta simples.
Mas a Fitoterapia não funciona dessa maneira. A escolha de uma estratégia considera características individuais, sintomas apresentados, histórico de saúde, medicamentos utilizados, possíveis interações, contraindicações e diversos outros fatores.
Por isso, uma planta que apresentou resultados interessantes em determinado estudo não necessariamente será adequada para outra pessoa.
E aqui existe um ponto fundamental: natural não significa automaticamente seguro…
Plantas medicinais e fitoterápicos também podem apresentar efeitos adversos, contraindicações e interações com medicamentos. Por isso, a utilização deve ser orientada por um profissional capacitado.
Esse cuidado é ainda mais importante quando falamos de crianças e adolescentes.
Então, como a Fitoterapia pode contribuir?
A Fitoterapia pode contribuir justamente por ampliar as possibilidades de cuidado.
Existem plantas medicinais com diferentes propriedades e pesquisas investigando seu potencial em aspectos relacionados ao TDAH, como atenção, comportamento, sono e outros sintomas associados.
Algumas já apresentam resultados promissores, outras ainda precisam de mais estudos. Tudo isso faz parte do processo científico.
O papel da Fitoterapia não é oferecer uma solução genérica para um diagnóstico, mas permitir que possibilidades terapêuticas sejam avaliadas de acordo com as necessidades de cada pessoa.
Fitoterapia e TDAH: novas possibilidades para um cuidado individualizado
A ciência ainda está avançando na compreensão do papel das plantas medicinais no cuidado de pessoas com TDAH. Mas uma coisa já podemos dizer: a Fitoterapia é um campo que vem sendo estudado e que apresenta possibilidades interessantes para diferentes aspectos relacionados ao transtorno.
Plantas como Crocus sativus, Ginkgo biloba, Melissa officinalis e Valeriana officinalis, entre outras, já foram investigadas em estudos clínicos, com resultados que ajudam a construir um conhecimento cada vez maior sobre seu potencial.
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Referências
1. DUTTA, Tusheema et al. Phytotherapy for attention deficit hyperactivity disorder (ADHD): a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Pharmacology, v. 13, 827411, 2022. DOI: 10.3389/fphar.2022.827411.
2. GOLSORKHI, Haide et al. Herbal medicines in the treatment of children and adolescents with attention-deficit/hyperactivity disorder (ADHD): an updated systematic review of clinical trials. Avicenna Journal of Phytomedicine, v. 13, n. 4, p. 338–353, 2023. DOI: 10.22038/AJP.2022.21115.
3. NATIONAL CENTER FOR COMPLEMENTARY AND INTEGRATIVE HEALTH (NCCIH). ADHD and complementary health approaches: what the science says. Bethesda: National Institutes of Health, 2023.